Holandeses vêm morar em favela para aprender na pele resultado de políticas públicas
Estudantes da Universidade de Utrecht estão de olho no jeitinho brasileiro de governar
Quase
locais. Grupo de holandeses, da pequena cidade de Utrecht, vivem em
albergue, se divertem e aprendem com moradores da Babilônia no Leme
RIO - A cidade holandesa de Utrecht
lembra aquelas vilas medievais europeias que parecem de brinquedo.
Com pouco mais de 300 mil habitantes, ela é cortada por canais e seu
centro é livre de carros. Sua principal atração é a Torre Dom, do
século XIV. Utrecht está localizada no coração da Holanda, país
com o quarto melhor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do mundo
(o Brasil está em 79º no ranking da ONU). O que ela tem a ver com o
Rio? “Heineken!”, responde, aos risos, o holandês Pieter ten
Broeke, de 21 anos, fazendo graça com o fato de a cerveja de seu
país ser tão popular por aqui. Brincadeiras à parte, Pieter está
no Rio há três semanas junto a outros 26 jovens holandeses com um
objetivo muito sério. O grupo, formado por estudantes de governança
da Universidade de Utrecht, não só decidiu de pronto que a cidade
seria o tema da pesquisa final do curso, como resolveu morar numa
favela. “Para ver a vida real no Rio”, explica uma das meninas da
turma. E a escolhida foi o Morro da Babilônia, no Leme.
A interrogação que eles trazem
na bagagem talvez seja difícil até para os cariocas: “quais são
os efeitos de iniciativas holandesas e das políticas brasileiras de
desenvolvimento social em torno da Copa do Mundo e dos Jogos
Olímpicos na segurança, na coesão social e na economia do Rio de
Janeiro?”. Ufa. O primeiro campo de estudo é a Babilônia, com
foco na Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) e em seus benefícios
para os moradores. Mas também o estádio do Maracanã com seus
impactos sociais, e os projetos desenvolvidos por organizações
holandesas.
O QG dos alunos é o Babilônia
Rio Hostel, fechado pelo grupo por sete semanas — eles ainda ficam
por aqui por mais quatro semanas. Na tarde da última terça-feira,
eles explicavam na varanda do albergue, com vista para a Praia do
Leme, que a língua (eles se comunicam em inglês) é uma barreira no
contato com as pessoas. Por outro lado, todos estão surpresos com o
calor da recepção.
- O povo holandês é muito
organizado, o que é bem diferente dos brasileiros. Mas é tão fácil
achar por aqui pessoas que queiram falar com a gente... Poderia ser
muito difícil, porque quase ninguém fala inglês. Na Holanda, seria
um pouco estranho chegar até as pessoas e pedir para fazer um monte
de perguntas - diz Keetje Walenkamp, de 24 anos.
Eles parecem bem à vontade na
Babilônia. Lá, as moças circulam de shortinhos e vestidinhos e os
meninos, a maioria, de bermudão. No hostel, o grupo vem recebendo a
constante visita de vizinhos curiosos, que pedem até para tirar
fotos dos gringos.
- É legal esse contato com as
pessoas, porque vamos viver um tempo por aqui. Acho que teremos uma
impressão real da vizinhança, e não apenas como turistas. As
pessoas nos reconhecem, nos dão “oi”, param para tomar um café
com a gente - afirma Noortse, que faz um contraponto entre a
inciativa do grupo e os turistas que sobem a favela de jipe, sem ter
qualquer relação com os moradores. - O charme da nossa pesquisa é
a história por trás das pessoas.
São
18 meninas e nove meninos, que, aos poucos, se tornam locais da
Babilônia. Eles já jogaram futebol com a criançada na quadra e são
figurinhas fáceis nos bares e na padaria. Na garupa dos
mototaxistas, costumam subir a Ladeira Ari Barroso. Outro dia,
ajudaram a carregar tijolos até uma casa que teve o telhado
destruído numa chuva. Noutro, tiveram uma conversa regada a cerveja
com o prefeito Eduardo Paes, que foi à favela inaugurar um conjunto
de apartamentos.
Contam com a ajuda da equipe do
Faveliving, que trabalha com turismo social, para se relacionar com
os moradores. E do casal dono do hostel, Bianca Lima e Eduardo
Figueiredo, que escreveu num quadro negro duas frases mágicas - “Eu
quero = I want” e “Eu gosto = I like”.
AVENTURAS
E APRENDIZADO VÃO VIRAR LIVRO
Os estudantes explicam que ainda é
cedo para falar sobre conclusões da pesquisa. Terminada a viagem,
todo o material recolhido servirá de base para dez artigos, que
ganharão um livro. Em novembro, o trabalho será divulgado num
simpósio em Utrecht. A viagem ao Rio é financiada por diferentes
instituições da Holanda, que são parceiras da universidade.
Jeanice Boerland, de 21 anos, faz
parte de uma das duas duplas de pesquisa na Babilônia. De shortinho,
camiseta com a inscrição "Hawai" e bronzeado de menina do
Rio, ela fala de suas impressões sobre os moradores:
- Alguns dizem que é bom ter a UPP,
que se sentem mais seguros agora e não veem mais crianças armadas.
Outros, que a UPP tornou a vida mais difícil. E há quem não veja
diferença: se antes viam pessoas normais carregando armas, agora
veem pessoas com uniforme armadas - relata Jeanice, acrescentando que
há moradores que acreditam na permanência da UPP, enquanto outros
acham que o projeto não sobreviverá ao fim dos Jogos.
- O que todo mundo diz é que agora
a UPP tem que ficar. Muita coisa mudou com a pacificação. Mas
esperam mais melhorias no campo social. Dizem que foi promessa do
governo - completa Lisa van Langen, de 20 anos.
O pessoal diz se sentir seguro na
favela, mas faz uma revelação: o vídeo de um intenso tiroteio na
Maré, divulgado pela TV Globo, assustou.
- Não podemos imaginar uma coisa
dessas lá (na Holanda) - afirma Pieter, contando que os recentes
casos de violência, incluindo a morte do médico Jaime Gold,
deixaram os parentes de cabelo em pé. - Nossos pais souberam pela
imprensa e começaram a ligar para a gente.
Apesar da boa vontade de ambos os lados, o choque cultural entre
realidades tão diferentes é inevitável. Além dos quesitos
organização e pontualidade, a comida causa estranhamento:
- Tudo aqui é frito. E vem com
muito açúcar ou muito sal. A gente até gosta, mas não é muito
saudável - avalia Keetje, que agora bebe Antarctica litrão no lugar
da Heineken.
Martijn Berghman, de 22 anos, cita
entre as coisas mais legais que fez a ida a um jogo do Flamengo no
Maracanã. A turma ainda foi à Ilha Grande. Mas nada cativou mais
que a acolhida na Babilônia:
- Na volta da Ilha Grande, estava na
van e, quando entramos na favela, as pessoas acenavam, diziam "oi"
para a gente. Me senti em casa.
(Fonte: Jornal “O
Globo”, de 31/05/15).
Comentário de MARIANA:
Esta
reportagem foi sugerida por meu pai Renato. Ele disse que quando nos
referimos a política, nos vem a mente o nome de políticos, do atual
presidente, do governador de nosso estado, do prefeito de nossa
cidade, e das siglas dos seus partidos políticos. Mas que quase
sempre esquecemos que eles são eleitos para estabelecer políticas
públicas que possam atender as necessidades básicas da população,
tais como: educação, saúde, segurança, saneamento, etc...
O exemplo
desses holandeses é muito interessante, pois mostra como é
importante conhecer de perto o problema das outras pessoas. Eles
deixaram de lado suas casas confortáveis para sentirem na pele a
realidade dos moradores da favela. E estão estudadando uma das
pricipais políticas públicas realizadas nas últimas décadas no
nosso estado que são as Unidades de Polícia Pacificadora (UPP).
E você
amiguinho do CFV / CEL, não acha que nossos políticos deveriam
fazer o mesmo que estes estudantes holandeses e se mudarem por um
período de tempo para uma das inúmeras favelas cariocas para
saberem de verdade as dificuldades de nossa população???