O mapa da cultura carioca feita ‘na raça’
De residência artística em favela a rodas de rima, passando por cineclubes, saraus e até um borboletário, 610 projetos que nunca tiveram apoio são reconhecidos pela prefeitura
Cineclube
Logo Guará, na favela do Guarabu, na Ilha do Governador, um dos 610
projetos informais mapeados pela prefeitura. Na foto, João Alberto
projeta filmes usando um caminhão como tela.
RIO — Para quem acha que a cultura
carioca está restrita a teatros, museus, cinemas, casa de shows,
salas de concerto, lonas e instituições mais conhecidas da cidade,
o mapa abaixo será uma surpresa. Para quem conhece a cultura que
acontece em garagens, becos, viadutos e praças do Rio, também. Pela
primeira vez, o poder público fez um levantamento dos projetos
artísticos que sobrevivem “na raça”, ou seja, que são
praticamente invisíveis, sem CNPJ ou qualquer apoio financeiro.
O número impressiona: são 610. E
funcionam há pelo menos um ano cada. Há cineclubes, saraus, grupos
de teatro e bibliotecas comunitárias; oficinas de artes visuais, de
DJ e de dança afro; festivais de hip-hop, de circo e de rock; rodas
de rima, de samba e de capoeira; batalhas de barbeiros e encontros de
praticantes de bambolê; aulas de forró, de escultura em areia, de
grafite. Dos mais inusitados, estão no mapa a Escola de Blogueiros
no Jacarezinho, a Oficina de Danças Circulares para idosos no Catete
e um borboletário em Senador Camará, com exposição das espécies
de borboletas encontradas no bairro.

O levantamento foi feito a partir
das informações dos inscritos no primeiro edital Ações Locais —
Edição Rio 450 anos, da Secretaria Municipal de Cultura, que tem o
objetivo de premiar projetos culturais informais e de comprovado
impacto local. A prefeitura recebeu 882 inscrições; 610 delas foram
“chanceladas”, ou seja, tiveram sua importância reconhecida com
um certificado oficial (o documento facilita a inscrição dos
projetos em outros editais da prefeitura, explica o secretário de
Cultura, Marcelo Calero, já que a maioria não é formalizada). Dos
610, os 85 mais bem avaliados no edital foram premiados com R$ 40 mil
cada — dinheiro que começa a ser depositado a partir da semana que
vem, segundo a secretaria.spaço Cultural Viaduto de Realengo,
projeto que transforma o espaço sob o viaduto do bairro em “centro
cultural”
O GLOBO visitou projetos e
transformou a lista geral dos chancelados, publicada no Diário
Oficial, no mapa acima, de onde brotam conclusões interessantes. Das
610 iniciativas, 163 — mais de um quarto, portanto — ficam na
Zona Norte. Só no Complexo da Maré foram identificadas 14, como o
Cineminha no Beco, cineclube que lota os becos da comunidade
semanalmente. No Complexo do Alemão, há dez. Um deles é o
#Barraco55, projeto de residência artística para pesquisadores e
artistas de fora da favela, idealizado por um músico local, Eddu
Grau. Já se hospedaram lá performers holandeses, fotógrafos
britânicos, artistas plásticos brasileiros. Todos deixam uma
contrapartida para o Alemão, fazendo oficinas ou shows, por exemplo.
— Fizemos um crowdfunding para
comprar o barraco e uma Kombi, para estender a dinâmica a outras
áreas do complexo — detalha Eddu, que teve a ideia após
participar do Rio Occupation London, residência artística que
recebeu 30 cariocas em Londres em 2012.
BAIRRO QUE TEM MAIS
PROJETOS É BANGU
Entre todos os bairros da cidade,
Bangu é o que tem mais projetos sem apoio público: são 28.
Realengo, ali perto, concentra 14.
— A importância cultural dessa
região aumentou muito nos últimos anos. Há várias lideranças
culturais fortes ali, que desenvolvem projetos com consistência
estética. Elas se reúnem, buscam soluções em conjunto, isso ficou
flagrante no levantamento — analisa Renato Rangel, subsecretário
de Articulação, Cidadania e Diversidade Cultural.
— Toda semana fazemos um “encontro
de gerações” no viaduto, com grafite, batalha de MCs, trocas de
rimas por livros, rolé de skate, capoeira, discotecagem, basquete —
conta Oberdan Mendonça, idealizador do projeto e um dos 85 premiados
pelo edital do município.
No levantamento de ações culturais
da Zona Oeste, chamaram a atenção da prefeitura projetos como o
Vida e Arte Cigana, que faz apresentações itinerantes de dança
cigana, e o Quilombo Camorim, que oferece oficinas de capoeira e
maculelê no Camorim, em Jacarepaguá.
— A Zona Sul e o Centro concentram
projetos com linguagem mais definida, como teatro, cinema, dança —
diz o subsecretário. — Nas zonas Norte e Oeste, a diversidade é
maior. Os projetos são híbridos, juntam artes visuais com ecologia,
até poesia com basquete (caso do Ponto da Palavra, em Santa
Cruz).
HISTÓRIAS COMOVENTES
Uma trajetória que emociona é a de João Alberto Mendonça, de 38
anos, morador da Favela do Guarabu, na Ilha do Governador. Em 2008,
João trabalhava como operário quando participou de uma oficina de
audiovisual do governo federal. Logo fundou um cineclube na favela,
passou a filmar as histórias dos moradores e projetava os vídeos em
ruas, praças (até carcaça de caminhão servia de tela). Batizou de
Cineclube Lobo Guará, um dos oito projetos chancelados na Ilha do
Governador e o único premiado.
— Há muitas rixas dentro das comunidades, o que nós procuramos fazer é resgatar a autoestima dos moradores, contando suas histórias, ao mesmo tempo em que exibimos os filmes em lugares que podem ser vistos por grupos rivais. Sempre foi tudo na paz e amor, sem dinheiro algum — conta João, que pretende comprar equipamento para o cineclube com o dinheiro do edital.
— Há muitas rixas dentro das comunidades, o que nós procuramos fazer é resgatar a autoestima dos moradores, contando suas histórias, ao mesmo tempo em que exibimos os filmes em lugares que podem ser vistos por grupos rivais. Sempre foi tudo na paz e amor, sem dinheiro algum — conta João, que pretende comprar equipamento para o cineclube com o dinheiro do edital.
Marcelo Calero conta que já enviou
a lista dos 610 chancelados para instituições privadas, como o Itaú
Cultural, e até para “a equipe do Luciano Huck”.
— É preciso dar visibilidade a
essas ações que até hoje eram praticamente invisíveis. O edital
mostra que, apesar dos trancos e barrancos, a cultura carioca segue
pulsante — anima-se Calero, que vai anunciar o segundo edital em
breve e já estuda transformar o levantamento num aplicativo para que
todos possam consultar a programação dos projetos.
(Fonte: Jornal "O Globo", de 30/05/15).
Comentário de MARIANA:
Adorei muito ler e poder publicar no meu Blog esta reportagem sobre estes exemplos de resistência e amor a cultura. Como é bom saber que, em lugares com poucos recursos financeiros, existem pessoas tão dedicadas a ajudar e dar alegria ao próximo.
Principalmente quando sabemos que um desses lindos exemplos é em nosso próprio bairro, pertinho da gente, como esse Cineclube Lobo Guará, fundado pelo João Alberto Mendonça, na Favela do Guarabu. A história dele realmente impressiona pelo gesto de amor e carinho a essa gente sofrida e tão carente de alegria. Aplausos sem parar para esse grande Insulano.
E você amiguinho da Turma 801 do CFV / CEL conhece algum exemplo de cultura carioca feita na "raça"???