quarta-feira, 15 de abril de 2015

MUNDO

Refúgio no turismo
Cubanos trocam profissões de nível superior por novo mercado, cada vez mais atraente
 

Mercado em expansão. Americanos posam em frente ao Capitólio, em Havana: cidade já ultrapassou destinos tradicionais na América do Sul, como Rio e Buenos Aires

HAVANA — Em uma cena de “Voos proibidos”, longa do cineasta Rigoberto López que acaba de estrear no país, a protagonista francesa, filha de um cubano, faz a pergunta que todos os estrangeiros querem saber: “Mas por que ele trabalha como taxista, se é formado em engenharia?”. A resposta é simples: ganha-se mais como recepcionista de um hotel cinco estrelas ou como taxista do que na maior parte dos empregos estatais. E como a grande maioria dos cubanos tem formação superior — Cuba conta com mais de um milhão de graduados universitários — não é raro encontrar advogados, médicos e jornalistas no mercado de turismo.

  Em um hotel cinco estrelas da capital, por exemplo, camareiras falam pelo menos dois idiomas e têm, quase sempre, nível superior. Para trabalhar no turismo, no entanto, é preciso passar por um curso técnico da Formatur, que dispõe de 18 unidades espalhadas pelo país. O sistema, estatal, oferece cursos de formação básica e de idiomas, além de capacitação em áreas como cozinha, recepção hoteleira e animação turística.

— Todos os funcionários de hotéis estrelados em Cuba têm normalmente a formação técnica e uma licenciatura — conta Rosemary Inés, engenheira que trabalha na recepção de um cinco estrelas em Miramar. — Os salários são a partir de 400 pesos cubanos, podendo chegar a 800 nos cargos técnicos de chefia como o meu (cerca de 32 CUCs, a moeda equivalente ao dólar). E ainda temos gorjetas e a bonificação de 10 CUCs mensais para os funcionários que não apresentarem faltas. Só professores não podem deixar a profissão de lado.

  Uma camareira ganha entre 500 e 700 pesos cubanos, mais a bonificação, podendo chegar a um total que fica em torno de 30 e 38 CUCs, o mesmo salário de um médico, por exemplo. O que acaba tirando profissionais qualificados do mercado.

— Sabemos que temos um sério problema salarial. O país busca a unificação monetária e estamos trabalhando para eliminar essa dualidade, mas é preciso fazer as mudanças sem causar um colapso econômico — diz Jesús Pulido, da Associação Nacional de Economistas e Contadores de Cuba.


 Em cartaz. Obra do artista plástico cubano Reinerio Tamayo mostra a realidade dos taxistas do país

  O desenvolvimento do turismo na ilha, a partir da década de 90, foi um dos pilares para a recuperação da economia. Mas, se era o Estado quem comandava o serviço num primeiro momento, hoje, a ilha precisa de novos impulsos. As “casas particulares”, que começaram de maneira informal precisamente no fim da década de 90, foram uma das primeiras atividades turísticas privadas regulamentadas. Hoje, a hospedagem particular — que supre a falta de infraestrutura hoteleira na ilha — é tão grande que atraiu um dos gigantes mundiais do ramo, o Airbnb.

  A empresa da Califórnia anunciou esta semana o início da atuação no país com, inicialmente, mil casas particulares em Havana e cidades como Matanzas, Cienfuegos e Santa Clara, que já ofereciam o serviço de hospedagem. O motivo: o aumento de turistas americanos após a reaproximação entre os dois países, em dezembro do ano passado. Segundo o Airbnb, a procura entre turistas dos Estados Unidos cresceu até 70% desde então. Para estar de acordo com as normas vigentes nos EUA, a plataforma em Cuba é aberta apenas para viajantes licenciados. E irá cumprir as regras que seguem as casas particulares, que precisam prestar contas e destinar 10% do arrecadado ao governo.

  “Cuba tornou-se um dos destinos mais procurados na América Latina pelos americanos, superando cidades como Rio de Janeiro, Buenos Aires e Cidade do México”, afirma, em comunicado, Nathan Blecharczyk, cofundador da empresa. “Vamos trabalhar com uma grande rede de casas particulares, dirigidas por microempresários locais, e que têm sido uma escolha popular para os visitantes há muitos anos. Estamos esperançosos e animados com essa expansão”.

— Nossa capacidade hoteleira está aquém do que recebemos de turistas, principalmente nos meses de alta ocupação, de janeiro a março. Em cidades como Trinidad e Viñales, por exemplo, são as casas particulares que suprem essa demanda — reconhece Pulido.

Zoe e Victor, casal de engenheiros aposentados, viram, ainda em 2000, uma oportunidade de negócio com a autorização do governo para hospedagens particulares a turistas. Começaram alugando um dos quartos da casa, de dois andares, num bairro menos turístico, mas ao lado da famosa Plaza de la Revolución. Conforme foram ganhando dinheiro, investiram em obras: mudaram-se para o primeiro andar e dividiram o quarto de casal em dois, que passaram a ser alugados. Mensalmente, pagam uma taxa única de 40 CUCs por quarto para o governo, além dos 10% do total que recebem, também em CUCs.

— Como o controle não é tão eficaz, muitos dizem que cobram um valor ao governo, mas os turistas pagam o dobro. Isso acontece muito em bairros mais turísticos — explica Victor, que tem notado uma mudança no perfil dos visitantes desde dezembro. — Da América do Sul há mais brasileiros e argentinos que dizem que “querem ver Cuba antes que mude”. Também começamos a receber turcos, que já pensam em investir.

Mas se há uma classe que tem sofrido com o aumento do turismo é justamente a dos taxistas. Os que começaram no negócio nos anos 2000, quando o governo passou a arrendar os novos modelos de carro a quem tinha interesse em dirigir, já se vê engolido pela concorrência, que não para de crescer.  As taxas cobradas pela empresa estatal Cubataxi também são consideradas altas demais: 23 CUCs ao dia pelo aluguel do veículo, além do que é pago mensalmente.

— Além do aumento do número de taxistas, muitas agências vendem pacotes de transporte diretamente aos turistas, diminuindo a demanda — conta José López, engenheiro mecânico de 57 anos, que há 15 está no mercado. — Mesmo assim, a possibilidade de trabalhar com o turismo e receber em CUCs aumenta nosso poder aquisitivo.

Mas há luz no fim do túnel. O estudante de comunicação social Javier Gomez, de 25 anos, espera ser taxista apenas enquanto termina a faculdade.

— Creio que daqui a quatro ou cinco anos um taxista não ganhe mais que um jornalista.



(Fonte: Jornal "O Globo", de 08/04/15).



  Comentário de MARIANA:

  Esta notícia me deixou bastante surpresa, pois meus pais sempre me disseram que o nível de escolaridade era um indicador importante para se saber se uma profissão era ou não bem remunerada. Ou seja quem estuda mais geralmente ganha mais. Mas esta é uma realidade típica em Cuba, um país que viveu durante décadas afastada dos valores capitalistas e com esta abertura se vê agora diante destas distorções.

  Torço para que esta fase passe logo lá em Cuba e que o conhecimento e a dedicação aos livros tenha a devida importância por lá também. E você companheiro da Turma 801, acha que no Brasil o grau de escolaridade realmente reflete em melhores salários???