Refúgio no turismo
Cubanos trocam profissões de nível superior por novo
mercado, cada vez mais atraente
Mercado em
expansão. Americanos posam em frente ao Capitólio, em Havana: cidade já
ultrapassou destinos tradicionais na América do Sul, como Rio e Buenos Aires
HAVANA — Em uma cena de “Voos proibidos”, longa do cineasta
Rigoberto López que acaba de estrear no país, a protagonista francesa, filha de
um cubano, faz a pergunta que todos os estrangeiros querem saber: “Mas por que
ele trabalha como taxista, se é formado em engenharia?”. A resposta é simples:
ganha-se mais como recepcionista de um hotel cinco estrelas ou como taxista do
que na maior parte dos empregos estatais. E como a grande maioria dos cubanos
tem formação superior — Cuba conta com mais de um milhão de graduados
universitários — não é raro encontrar advogados, médicos e jornalistas no
mercado de turismo.
Em um hotel cinco
estrelas da capital, por exemplo, camareiras falam pelo menos dois idiomas e
têm, quase sempre, nível superior. Para trabalhar no turismo, no entanto, é
preciso passar por um curso técnico da Formatur, que dispõe de 18 unidades
espalhadas pelo país. O sistema, estatal, oferece cursos de formação básica e
de idiomas, além de capacitação em áreas como cozinha, recepção hoteleira e
animação turística.
— Todos os funcionários de hotéis estrelados em Cuba têm
normalmente a formação técnica e uma licenciatura — conta Rosemary Inés,
engenheira que trabalha na recepção de um cinco estrelas em Miramar. — Os
salários são a partir de 400 pesos cubanos, podendo chegar a 800 nos cargos
técnicos de chefia como o meu (cerca de 32 CUCs, a moeda equivalente ao dólar).
E ainda temos gorjetas e a bonificação de 10 CUCs mensais para os funcionários
que não apresentarem faltas. Só professores não podem deixar a profissão de
lado.
Uma camareira ganha
entre 500 e 700 pesos cubanos, mais a bonificação, podendo chegar a um total
que fica em torno de 30 e 38 CUCs, o mesmo salário de um médico, por exemplo. O
que acaba tirando profissionais qualificados do mercado.
— Sabemos que temos um sério problema salarial. O país busca
a unificação monetária e estamos trabalhando para eliminar essa dualidade, mas
é preciso fazer as mudanças sem causar um colapso econômico — diz Jesús Pulido,
da Associação Nacional de Economistas e Contadores de Cuba.
Em cartaz. Obra do
artista plástico cubano Reinerio Tamayo mostra a realidade dos taxistas do país
O desenvolvimento do
turismo na ilha, a partir da década de 90, foi um dos pilares para a
recuperação da economia. Mas, se era o Estado quem comandava o serviço num
primeiro momento, hoje, a ilha precisa de novos impulsos. As “casas
particulares”, que começaram de maneira informal precisamente no fim da década
de 90, foram uma das primeiras atividades turísticas privadas regulamentadas.
Hoje, a hospedagem particular — que supre a falta de infraestrutura hoteleira
na ilha — é tão grande que atraiu um dos gigantes mundiais do ramo, o Airbnb.
A empresa da
Califórnia anunciou esta semana o início da atuação no país com, inicialmente,
mil casas particulares em Havana e cidades como Matanzas, Cienfuegos e Santa Clara,
que já ofereciam o serviço de hospedagem. O motivo: o aumento de turistas
americanos após a reaproximação entre os dois países, em dezembro do ano
passado. Segundo o Airbnb, a procura entre turistas dos Estados Unidos cresceu
até 70% desde então. Para estar de acordo com as normas vigentes nos EUA, a
plataforma em Cuba é aberta apenas para viajantes licenciados. E irá cumprir as
regras que seguem as casas particulares, que precisam prestar contas e destinar
10% do arrecadado ao governo.
“Cuba tornou-se um
dos destinos mais procurados na América Latina pelos americanos, superando
cidades como Rio de Janeiro, Buenos Aires e Cidade do México”, afirma, em
comunicado, Nathan Blecharczyk, cofundador da empresa. “Vamos trabalhar com uma
grande rede de casas particulares, dirigidas por microempresários locais, e que
têm sido uma escolha popular para os visitantes há muitos anos. Estamos
esperançosos e animados com essa expansão”.
— Nossa capacidade hoteleira está aquém do que recebemos de
turistas, principalmente nos meses de alta ocupação, de janeiro a março. Em
cidades como Trinidad e Viñales, por exemplo, são as casas particulares que
suprem essa demanda — reconhece Pulido.
Zoe e Victor, casal de engenheiros aposentados, viram, ainda
em 2000, uma oportunidade de negócio com a autorização do governo para
hospedagens particulares a turistas. Começaram alugando um dos quartos da casa,
de dois andares, num bairro menos turístico, mas ao lado da famosa Plaza de la
Revolución. Conforme foram ganhando dinheiro, investiram em obras: mudaram-se
para o primeiro andar e dividiram o quarto de casal em dois, que passaram a ser
alugados. Mensalmente, pagam uma taxa única de 40 CUCs por quarto para o
governo, além dos 10% do total que recebem, também em CUCs.
— Como o controle não é tão eficaz, muitos dizem que cobram
um valor ao governo, mas os turistas pagam o dobro. Isso acontece muito em
bairros mais turísticos — explica Victor, que tem notado uma mudança no perfil
dos visitantes desde dezembro. — Da América do Sul há mais brasileiros e
argentinos que dizem que “querem ver Cuba antes que mude”. Também começamos a
receber turcos, que já pensam em investir.
Mas se há uma classe que tem sofrido com o aumento do
turismo é justamente a dos taxistas. Os que começaram no negócio nos anos 2000,
quando o governo passou a arrendar os novos modelos de carro a quem tinha
interesse em dirigir, já se vê engolido pela concorrência, que não para de
crescer. As taxas cobradas pela empresa
estatal Cubataxi também são consideradas altas demais: 23 CUCs ao dia pelo
aluguel do veículo, além do que é pago mensalmente.
— Além do aumento do número de taxistas, muitas agências
vendem pacotes de transporte diretamente aos turistas, diminuindo a demanda —
conta José López, engenheiro mecânico de 57 anos, que há 15 está no mercado. —
Mesmo assim, a possibilidade de trabalhar com o turismo e receber em CUCs
aumenta nosso poder aquisitivo.
Mas há luz no fim do túnel. O estudante de comunicação
social Javier Gomez, de 25 anos, espera ser taxista apenas enquanto termina a
faculdade.
— Creio que daqui a quatro ou cinco anos um taxista não
ganhe mais que um jornalista.
(Fonte: Jornal "O Globo", de 08/04/15).
Comentário de
MARIANA:
Esta notícia me
deixou bastante surpresa, pois meus pais sempre me disseram que o nível de
escolaridade era um indicador importante para se saber se uma profissão era ou
não bem remunerada. Ou seja quem estuda mais geralmente ganha mais. Mas esta é
uma realidade típica em Cuba, um país que viveu durante décadas afastada dos valores
capitalistas e com esta abertura se vê agora diante destas distorções.
Torço para que esta
fase passe logo lá em Cuba e que o conhecimento e a dedicação aos livros tenha
a devida importância por lá também. E você companheiro da Turma 801, acha que
no Brasil o grau de escolaridade realmente reflete em melhores salários???

